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Disse Paulo: “Porque estou zeloso de vós com zelo de Deus; porque vos tenho preparado para vos apresentar como uma virgem pura a um marido, a saber, a Cristo. Mas temo que, assim como a serpente enganou Eva com a sua astúcia, assim também sejam de alguma sorte corrompidos os vossos sentidos e se apartem da simplicidade que há em Cristo” (II Cor 11:2-3).
A suprema experiência espiritual aparece sempre na forma de núpcias místicas com o divino Esposo. A alma humana é como uma virgem que se entrega totalmente a Deus
Muitos desejariam celebrar estas núpcias divinas, mas não conseguem cruzar a soleira da porta que conduz ao interior desse leito místico.
Que é que os impede se estão diante da porta, por que não entram? Por que não se entregam ao divino esposo? Qual o seu obstáculo?
O seu obstáculo é a sua falta de solidão. Não são almas suficientemente solitárias. Andam de mãos dadas com outros amores. Não são almas virgens, puras; estão cheias de desejos e compromissos profanos. Não são monogâmicas – vivem nas poligamias do ego.
Os que entram na sala e celebram as suas núpcias divinas são as almas solitárias, as que disseram adeus aos amantes mundanos, que se afastaram dos ruídos da multidão, perderam de vista todos os litorais da sociedade e todas as praias dos interesses do ego, e se deixaram empolgar pelas ondas bravias dos mares de Deus.
Todo o homem realmente espiritual verifica que a sua solidão aumenta na razão direta da sua espiritualização. O homem profano é rodeado de muitos, o espiritual é cada vez mais isolado – até que a sua solidão atinge o cume do Everest, onde a alma se encontra com Deus em total solidão e silêncio, em absoluta nudez espiritual. Nem pai nem mãe, nem filho nem filha, nem esposo nem esposa, nem amigo algum nos pode acompanhar nesse último trecho da nossa jornada á silenciosa Divindade. A alma a sós com Deus.
Na razão direta que o homem se espiritualiza mais se incompatibiliza com a sociedade em que vive. Os assuntos dos seus amigos de outrora não o interessam mais; e o que o interessa não interessa aos outros. Quanto mais o homem se aproxima de Deus, mais se distancia dos homens que não se aproximam de Deus. Mas, por outro lado, o homem espiritual encontra o seu mundo de afinidade interior mil vezes mais belo que todas as sociedades profanas de outrora. Ele vive na “comunhão dos santos”.
Também na vida de Jesus aparece essa progressiva solidão: no domingo de ramos, milhares de amigos o aplaudiam. Na santa ceia, ainda são doze. Pouco depois, onze. No horto das oliveiras, são apenas três que acompanha o solitário sofredor. No calvário só lhe resta um dos seus discípulos. E deste único discípulo fiel Jesus se desfaz, entregando-o á sua mãe. E assim, em total solidão e desnudes, pôde ele dizer: “Está consumado... Pai em tuas mãos entrego o meu espírito”...
Muitos estão diante da porta – poucos entram no interior do santuário – são os grandes solitários...
José Ribeiro
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